ENTREVISTA: FLORDELIS

Por Robert Schwenck | Redação Cult

“A VIDA ESTÁ PRECISANDO TER UM NOVO SIGNIFICADO”

Flordelis

Uma história real de inspiração e amor ao próximo traduz o que é Flordelis (nome artístico de Flordelis dos Santos Souza), carioca, ex-moradora da comunidade do Jacaré, que adotou 55 crianças (possui quatro filhos biológicos) e que chegou até o Congresso Nacional como a deputada federal mais votada do Rio de Janeiro nas últimas eleições. Sua maior luta em Brasília é a questão da Adoção, deseja que leve o mesmo tempo de uma gestação, nove meses. É pastora e cantora gospel de sucesso, vendeu mais de 300 mil cópias conquistando discos de Ouro e Platina. É também sucesso no YouTube, seu canal possui quase 160 mil inscritos, seus vídeos como cantora passam de 100 milhões de views e como mãe e entrevistas (sua primeira aparição foi na Xuxa) possui mais de 5 milhões de views, possuindo no Instagram 765 mil seguidores. Há dez anos sua história virou filme, Flordelis – Basta Uma Palavra para Mudar, que teve no elenco nomes, como Reynaldo Gianecchini, Letícia Sabatella, Cauã Reymond, Fernanda Lima, Bruna Marquezine, Deborah Secco, Letícia Spiller, Alinne Moraes, entre outros famosos. O filme foi realizado totalmente sem cachês para os artistas envolvidos, que se propuseram a realizá-lo de forma voluntária pelo impacto da história real. Toda a renda foi utilizada na construção de um centro de reabilitação para jovens e na compra de uma casa para Flordelis. É casada com o pastor Anderson do Carmo e juntos pastoreiam o Ministério Flordelis – Cidade do Fogo, em São Gonçalo – RJ, e ainda criam 55 filhos. Suas causas são: Instituto Flordelis Comissão de Defesa dos Direitos dos Deficientes. Direitos da Mulher. Suplente dos Direitos Humanos. Seguridade Social e Família – Adoção.

Nesta entrevista concedida à revista Cult, Flordelis fala sobre sua missão solidária, da insensibilidade das pessoas nos dias atuais, da necessidade de buscarmos um novo sentido para a vida, dos seus projetos sociais, principalmente adoção infantil, e da esperança de que é possível termos uma sociedade mais justa, fraterna e igualitária. Confira nosso bate-papo.

Como define esta sua missão de ajudar ao próximo?

Existe um sentido, um sentimento dentro de mim que, mesmo sem às vezes poder ajudar por falta de recursos, fico buscando formas para dar um apoio, uma ajuda, às pessoas. Eu amo poder fazer alguma coisa e acabo aprendendo, recebendo também, isso me faz feliz.

Como nasceu este trabalho? Você se espelhou em alguém?

Sei que inúmeras pessoas transformaram o mundo no decorrer de suas vidas, mas quando comecei, ainda não havia sequer ouvido falar dessas pessoas.Eu já nasci com esse sentimento dentro de mim. E esse sentimento se tornou mais forte porque fui criada em uma igreja evangélica e ouvia falar da história de Jesus que, por onde passou, ajudou pessoas e eu ficava fascinada.

O que mais te gratifica nesta trajetória humana?

É me sentir útil. É ver alguém sorrindo e saber que consegui tirar um pouco do “cinza” da vida daquela pessoa, conseguir colorir um pouquinho a ponto de fazê-la sorrir.É lutar por alguém que parece que não tem mais jeito, que ninguém acredita mais que tenha jeito e através do amor e da insistência, ver aquela pessoa transformada, modificada. É difícil conseguir fazer as pessoas que convivem com você e as que não convivem também entenderem isso. Mas é isso que me mantém viva.

Quais os maiores desafios que você encontrou?

O maior desafio que encontrei e ainda encontro é que as pessoas estão ficando “ocas”, vazias, racionais demais em uma razão de apenas se dar bem, não querem se comprometer umas com as outras, cada um por si… desprovidas do verdadeiro amor.O maior desafio é transformar a consciência dessas pessoas, mostrar para elas que teremos um mundo melhor quando nos unirmos para lutarmos e ajudarmos pessoas, independente da classe social ou da cor da sua pele.A vida está precisando ter um novo significado.

Como você vê as ações sociais no Brasil?

As ações sociais ainda são muito fracas.O crescimento da violência trouxe a intervenção federal para as comunidades do Rio de Janeiro. Mas tinha que ser feito junto uma intervenção social. Há tantas coisas que podem ser feitas para dar dignidade e oportunidade.

Quais são seus principais projetos sociais?

Crianças não nasceram para morar em abrigos. Eles são necessários, mas não para a criança ficar por meses e até anos. Abrigos são lugares de passagem. Os números não batem. Temos mais pessoas interessadas a adotarem (mais de 45 mil) do que crianças para serem adotadas (aproximadamente 9 mil).Precisamos incentivar a Adoção Tardia, desburocratizar o processo de adoção e diminuir o prazo que é dado à família biológica para os pais terem a criança de volta. A criança não pode ser penalizada por causa dos adultos e ficar meses e anos dentro de um abrigo.Por melhor que esse abrigo seja, a criança precisa estar na casa dela, ter um pai, uma mãe, uma família.Precisamos salvar nossas crianças e adolescentes que estão no crack, na cocaína, e que já é o estágio final da dependência química. Precisamos de políticas públicas de prevenção contra as drogas.Há muito a ser feito.

Como é ter 55 filhos? Todos eles cabem no seu coração?

Todos cabem no meu coração! Mas não é fácil ser mãe, ainda mais de 55 filhos.Filhos dão muito trabalho, uns menos, outros mais.Há um ditado popular que diz filho criado, trabalho dobrado. Concordo. É tão bom quando são pequenos, que você pode manter pertinho sempre, depois que crescem querem seguir sozinhos, achando que sabem tudo aí. Aí uns, nesse pensamento, criam cada dor de cabeça… Mas nunca vou abandonar nenhum deles. Quando erram, brigo, chamo atenção, não concordo com atitudes erradas, mas abandonar, jamais.

Você se considera uma referência para um mundo mais solidário?

Ai, meu Deus! Me considero uma referência para os meus filhos, e se sou para eles, sou para outras pessoas também.

O que você projeta para o futuro? É possível uma sociedade igualitária?  Estou com alguns projetos para tentar conseguir melhorar a vida de algumas pessoas e a minha também.Como já respondi, quando faço algo por alguém, estou recebendo também. Eu acredito que é possível termos uma sociedade mais igualitária sim!

Que mensagem você deixa para as pessoas, os líderes políticos e os grandes empresários em busca de um Brasil mais justo, próspero e fraterno?

Temos que criar mais pontes de diálogos e menos muros de separações. Temos que sonhar e lutar por um Brasil melhor, mais igualitário e justo. Isso é um grande desafio para todos. Precisamos de saneamento, educação, saúde. Mais oportunidades de trabalho, precisamos preparar nossos jovens para o mercado de trabalho, e isso começa melhorando a educação das nossas crianças. E que todos aprendam a tratarem uns aos outros com mais respeito.

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