Joana Araújo | Jornalista
Fotos Divulgação
UBERLANDENSE LUIZ CLÁUDIO É O ÚNICO ESTILISTA NEGRO DO LINE-UP DO SPFW
Em março de 2018, a Louis Vuitton, uma das principais marcas mundiais de moda, anunciou que o designer Virgil Abloh era o novo diretor criativo da linha masculina da grife. O fato de a Louis Vuitton ter contratado um estilista negro, pela primeira vez em 150 anos de história, é um grande passo para que a diversidade realmente exista fora e dentro das passarelas. E no Brasil? Luiz Cláudio Silva, da Apartamento 03, é um dos raros negros no topo da cena fashion brasileira. Atualmente, é o único profissional do line-up do São Paulo Fashion Week – SPFW. Nascido em Uberlândia – MG, Luiz Cláudio optou por fazer um desfile somente com modelos negras na última edição de 2018 do evento. “Achei que esse era o momento ideal. Queria me ver e que as pessoas se reconhecessem na passarela. Eu cresci sem ver isso, mas eu quero mostrar para as meninas que elas estão representadas. Eu tinha o receio de não conseguir o casting inteiro de negras, já que várias agências têm sempre dois ou três negros para responder a cota necessária. Foi uma grata e feliz surpresa ter conseguido todas as meninas que eu tinha em mente”, declara o estilista. Luiz se mudou com a família para Belo Horizonte aos sete anos e aprendeu com a mãe seu ofício. “Minha mãe cuidava da casa a partir da costura e com ela aprendi sobre cortes, moldes e tecidos. Só depois, mais tarde, percebi que isso fez toda diferença quando fui estudar moda. Quando ganhei um concurso de desenho de moda na revista Moda Moldes foi uma sensação única. Naquele momento soube que era o que eu gostaria de fazer”, conta. Mas trilhar os caminhos da moda não foi fácil, afinal, Luiz é um dos poucos negros em um cenário quase totalmente branco. “A minha marca não tem o meu nome, então quando alguns me percebem é muito constrangedor. Certa vez, ao fazer fotos para uma das minhas coleções, eu já estava no estúdio e uma pessoa me pediu um café e perguntou se eu já sabia qual seria o menu da cozinha. O nome disso é racismo estrutural. Por isso, a todo momento temos que ser fortes”, observa.
Relembrando sua história, Luiz conta a falta que a representatividade fez em sua vida. “Eu não tinha ninguém pra me espelhar. Aliás, quando disse que seria designer, vários me disseram que não havia lugar para estilistas negros; não de sucesso. Você não se ver em nenhum lugar, te deixa um vazio. Todos os lugares são ocupados por pessoas brancas e não se enxergar é algo que só quem passa entende. Eu cresci vendo tudo branco e tudo que eu conhecia de preto era pobre ou ruim. Na TV todos eram brancos! Quando havia alguém da minha cor era o ‘moleque’ da história, empregado, a babá, um personagem insignificante morador do subúrbio. Quando havia mais de três negros era uma história de escravidão romantizada. Fomos acostumados a não enxergar negros em cargos executivos, isso moldou o pensamento de todo o país. Queremos nos ver nas telas como heróis, protagonistas. Encontrar a nossa cultura retratada em um filme nos enche de orgulho”, desabafa.
Pensando em outros jovens, o estilista reforça o peso de ter em quem se espelhar. “A representatividade é muito importante. Na escola eu explicava que minha mãe – Dona Vanda – escolheu o nome Luiz Cláudio porque achava que ficaria lindo escrito em uma porta de um consultório médico. Os colegas então riam e diziam ‘não existe médico preto’. Imagine uma criança sonhando com um futuro e não ter ninguém pra olhar e se enxergar, se espelhar? Imagine só enxergar funções de baixa renda ou serviçal como opção para o futuro?”, explica. Quando perguntado sobre ser inspiração para jovens negros, Luiz é tímido, mas reconhece a necessidade. “Não me via como exemplo de representatividade, mas apenas como operário da moda, como todos outros que fazem essa cadeia de negócios girar. Mas aí você passa a figurar entre as pessoas que mostram onde os negros são capazes de chegar e ocuparem os espaços que quiserem. Eu não tive referências, mas posso ser de outros jovens”, finaliza.
Luiz Cláudio Silva: “Fomos acostumados a não enxergar negros em cargos executivos, isso moldou o pensamento de todo o país”
Joana Araújo é jornalista, com experiência em assessoria pública e privada. Nos últimos anos tem se dedicado a entender suas origens e a pesquisar
o histórico da busca pela igualdade racial no Brasil.
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