Antes do prato, os custos do agro 

Adalberto Deluca

Fotos Divulgação

Os custos do agronegócio dentro da porteira.

Olá, sr. Albuquerque. Olá Arnaldo! Vindo pela estrada observei quanto sua lavoura está evoluindo. Então, da forma como está indo, teremos uma grande safra. Eu acredito e torço muito pelo seu resultado. Agora, sr. Albuquerque, algo que observei desde minha última vinda aqui é a quantidade de pessoas que trabalham com o senhor. Sim, precisamos de mão de obra em vários setores importantes da propriedade. Sr. Albuquerque, e o custo dessa mão de obra está dentro do seu orçamento? Ha! Ha! Ha!, rapaz, se eu colocar tudo na ponta do lápis eu nem sequer planto, amigo! Exatamente isso que me preocupou. O sr. sabe quanto é importante para nossa empresa, como cliente e como amigo. E nesse caso, quem avisa amigo é, não é mesmo? O que notei é que mesmo com todas as pessoas que vejo aqui, o senhor está sempre ocupado com a produção. Nem aceita nossos convites para viagens. Mas e você acha que todas as pessoas que contrato são capacitadas para me substituir, rapaz? Falando em outro assunto, como anda a manutenção de suas máquinas? Antes da safra, o sr. faz revisões preventivas? Isso evitaria de alguma quebrar bem na hora que mais precisar. Como tem feito? Você hoje está acertando somente meus pontos fracos… hehehe! Sabe que tenho pensado em comprar tudo novo? São tantos problemas que acontecem com essas máquinas, que às vezes penso que é até azar!

O diálogo acima pode parecer peça de ficção, mas é mais corriqueiro do que se pode pensar. O sistema produtivo da agropecuária brasileira bate recordes de produtividade, mas isso está muito dependente de inovações tecnológicas, seja na evolução genética ou nos produtos cada vez mais sofisticados que são utilizados pelos produtores rurais em todo o país. Muitos são os fatores que concorrem com a lucratividade dos produtores e que, às vezes, parecem fora do alcance dos mesmos em resolver suas causas e efeitos. Há o fator câmbio que causa impacto nos insumos e na hora de venderem a produção, há o fator climático que hoje tem muito precisão nas informações disponíveis. Mas, há um fator de extrema sensibilidade que são os chamados Custos Dentro da Porteira, entre eles os financeiros, as depreciações, a sazonalidade – que dependem, exclusivamente, da capacidade administrativa de proprietários e gerentes das fazendas e sítios. Se olharmos séries históricas de rentabilidade em diversos tipos de investimentos (Sim! agronegócio deve ser visto como investimento!), estudos de 2019 demonstraram que a rentabilidade da agricultura de grãos perdeu para a poupança (!) ficando em 9º lugar entre todos os investimentos mais conhecidos, enquanto a pecuária de corte figurou em 10º lugar nesse mesmo ranking. Se tomarmos a pecuária de leite, no estudo realizado pela consultoria Scott, teve rentabilidade de 0,2% – para quem produz com alta tecnologia, – o que representa uma pequena parcela dos produtores brasileiros.

Estes dados, antes de serem alarmistas, porque não levam em consideração a valorização das terras, são um indicador de que as próximas gerações precisarão mudar a forma como se vê o sistema produtivo da agropecuária adotando tecnologia de ponta em todos os processos e, principalmente, alta capacidade de controle financeiro. Para quem não é do ramo, apenas para uma análise frívola, algumas literaturas mostram que são pelo menos 38 itens que compõem o custo de uma produção agrícola. Isso sem contar o envolvimento permanente com decisões de compras e de vendas, além do vai e vem de vendedores e compradores em suas propriedades. Antes de parecer sufocante, a atividade produtiva do agronegócio é uma vocação. O que não pode ser tratado como intuição, uma vez que atualmente as informações de mercado, meteorológica e técnica beiram à abundância (o Big Data do agro é muito robusto) e, cada vez mais, isso exigirá muito profissionalismo dos bravos produtores rurais. Aliás, tratar os agentes do agronegócio de “produtores” já nem é mais permitido, e não por ser pejorativo, mas sim uma espécie de condenação. Já há muito tratamos os mesmos como Empresários Rurais, porque as propriedades que não se transformaram em empresas nos últimos 10 anos, pelo menos, já fracassaram muito antes de perderem produtividade. Enfim, quando falamos em custo na cultura brasileira já estamos causando desconfortos e quando se trata de propriedades agropecuárias esse assunto toma contornos dramáticos, tamanho o desnível do conhecimento dos principais agentes desse ramo da economia. Torço para que esse tema seja sempre uma orquestra clássica – e não uma ópera bufa – e para que, aqueles que tiverem acesso aos distintos amigos que atuam nessa atividade, levem sempre a informação mais precisa e contribuam para a evolução permanente das propriedades, também no que tange à administração, uma vez que a produção vai bem, obrigado!

Crédito

Adalberto Deluca é sócio consultor da Know How Consulting.

 

 

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