DONA CORA 

BEM_CULT_ESTAR BEM


Mônica Cunha | Jornalista

Mauro Marques | Bruno Fernandes

“NÃO FUI SÓ PROFESSORA, QUIS SER ESPOSA, MÃE, A GENTE NÃO PODE SE DIRECIONAR PARA UMA RUA SÓ, TEM QUE TER MUITAS VIAS”

Era uma entrevista com dia e hora marcados com uma semana de antecedência. E acabou virando uma visita. Daquelas que a gente chega, pega o fio da meada da prosa e segue tarde afora com casos, reflexões e, claro, muito café. Chegamos pontualmente às 14 horas ao lar de dona Cora. Era uma quinta-feira de muito calor. Ana Cristina, uma das funcionárias, abriu o portão e o verde na frente da casa fez o calor logo ir embora. Entramos e perto da escada havia o piano. Na parede, o retrato da dona da casa. Atravessamos a sala e vi a minha entrevistada sentada na ponta da mesa de jantar, conversando com alguém. Era o genro. Cumprimento ambos e escolho um lugar. Fico ao lado de dona Cora. Ela que assina Pavan Capparelli e é referência quando a gente ouve ou fala sobre música. Antes de começarmos, Ana pergunta se aceitamos um cafezinho. Não costumo recusar e aceito de prontidão a gentileza. E a bebida tão comum aos mineiros, seja a hora que for, é uma das paixões de dona Cora. Ela confessa que ama um bom café e me sinto à vontade diante dela. Descobrimos mais uma afinidade. Somos do mesmo signo, capricornianas, aniversariantes de dezembro. Me dou ao direito de me sentir amiga da musicista que preza os amigos que tem. E vai me contando sobre duas em especial, Ieda e Marta, irmãs. Elas foram vizinhas durante anos. “Nós tínhamos as mesmas bonecas. Brincávamos sempre juntas”. E logo vem uma risada gostosa quando dona Cora revela que deram a uma das bonecas o nome da professora de piano, Amanda.

Ela faz uma pausa e traz uma das certezas da vida dela: “Era uma amizade intensa mesmo. Eu tenho muitos amigos. Lecionar música trouxe muitos amigos, os estudantes viraram amigos”. E muitos tornaram-se professores inspirados na habilidade da mestre. Enquanto conversamos, há o som dos acordes de um violino. Há alguém estudando no segundo andar. Uma trilha que se completa pela cortina inusitada que divide a copa da sala. Ela é feita de cristais unidos por elos de metal. Desvio o olhar para espiar, mas atenta à conversa. Percebo que a cada passagem do vento ela canta. Sim, como sinos em miniatura. Não podia ser diferente onde há melodia até na voz de quem mora ali. O jeito que dona Cora pronuncia as palavras é como estar em um concerto. Frases suaves, afinadas pela experiência de vida e elegância de alma. Mais ouço que pergunto e conheço um pouco mais dessa senhora que tem recentes 93 anos. Teve bolo de aniversário. Mas ela admite não queria muito comemorar. “A velhice chega e toma conta da gente. É tão difícil, mas nós temos que enfrentar aquilo que aparece na nossa frente”. Não vejo nenhum traço de fraqueza apesar da idade. Sinto a força de quem passou por várias dificuldades durante o caminho do sonho e da vocação, mas que foi e é muito firme nas decisões que tomou ao longo da vida. Desde menina, sabia o que bem queria. Filha única de Angelino Pavan e da modista Adélia de Oliveira Pavan, ela cresceu no centro da Uberlândia. Foi estudar fora. Saiu cedo, tinha apenas 17 anos e o apoio dos pais. Fez o curso superior de Geografia e História, na PUC de São Paulo. Estudiosa que era, ainda se formou no Conservatório Dramático e Musical da capital paulista. Voltou com um objetivo muito claro que compartilhou com o pai: “queria fundar uma escola de música em Uberlândia e eu quero que essa escola tenha um curso superior para que a gente possa transmitir conhecimento para a mocidade uberlandense”. Foram sete anos amadurecendo a ideia, não queria nada de improviso, queria algo que se perpetuasse. Era um sonho dela, mas que muitos tomaram para si. “Fui me cercando de pessoas que pudessem ajudar.” O marido Vitório Capparelli, que entrou em contato com o ministro da Educação na época, o ex-governador Rondon Pacheco e tantos outros que, como ela mencionou, tinham raízes da cultura de Uberlândia. E lá se vão mais de 60 anos formando tantas pessoas. E ela faz a matemática do ensino: no ano passado cerca de 2400 alunos estavam matriculados para estudar de instrumentos ao canto no Conservatório, onde ela vai uma vez por semana. Para quem ainda não sabe, dona Cora criou a faculdade de artes. O pedido feito a ela veio do então ministro Tarso Dutra. Ela pesquisou, buscou se informar e em quatro meses entregou o projeto com custos, cronograma e tudo que exigia para os cursos. Em janeiro de 1974, as portas da Faculdade de Artes se abriram. A memória vem trazendo as histórias e a mão direita de dona Cora vai desenhando no forro. Movimentos orquestrados pelas lembranças. “Eu fundei quatro escolas e acho que trabalhei dentro da minha possibilidade. E não fui só professora, eu quis ser esposa, mãe, a gente não pode se direcionar para uma rua só, tem que ter muitas vias”.

“Eu acho que é muito mais importante onde a gente põe o amor”

É neste momento que chega o caçula, o médico Sílvio Capparelli. Dá um beijo na mãe e segue para a cozinha. Hoje, dona Cora é mais caseira. Sai pouco, mas tem um hábito que muitos deixaram perder. Ela telefona muito. “Algo que me liga muito aos amigos é o telefone”. Uma rotina que alimenta os laços. Dona Cora ainda toca um pouquinho a cada dia. Tem aulas de inglês e é uma leitora disciplinada. Tem semana que lê pelo menos três livros. Faz tricô quando é possível e ensaia todo sábado para o coral da Catedral Santa Terezinha para missa das 7 da manhã de domingo. “Foram tantos anos trabalhando com o coral. Quando comecei, eu tinha pouco mais de 12 anos. Faço questão de manter esse ritual”. Que para ela significa estar mais perto daqueles de quem herdou a fé, principalmente da avó paterna que sempre foi muito religiosa. “Diariamente, às 6 da manhã, ela estava na igreja e não tinha serviço que a afastasse”. E a fé foi fundamental no casamento de dona Cora quando o marido decidiu fazer pós-graduação no exterior. “A gente deu uns passos que não eram muito comuns. O Vitório quis se preparar bem para ter uma condição melhor e foi passar um ano e meio nos Estados Unidos. Éramos recém-casados. Tive que trabalhar bastante, quebrar umas barreiras porque o meu pai não queria que ele me deixasse aqui e fosse, achava que era arriscado deixá-lo ir embora. Mas a gente teve uma firmeza nas nossas intenções”. E tudo deu certo. A distância diminuiu com as notícias da família que eram escritas. “Naquele tempo as coisas eram tão diferentes, daqui a gente não falava para tão longe. Toda noite escrevia um pedacinho de uma carta e a cada três dias colocava no correio”. A campainha toca. É uma conhecida dela que trouxe um presente. Carinhosamente, ela pede para aguardar e quero saber o que para ela é essencial para superar os percalços. “Se eu colocasse tudo nas mãos de Deus e esperasse que as coisas viessem um pouco da parte dele, a gente seria mais feliz, mais organizado e tudo…”. Dona Cora é simples. Avessa a luxo, consumo desenfreado. “Eu acho que é muito mais importante onde a gente põe o amor”. E é do grande amor que ela sente muita saudade. Está nos olhos. Ela ficou viúva há dois anos. A convivência de Dona Cora e Sr. Vitório foi de quase 70 anos. Tempo de muita compreensão, de muita cumplicidade. E juntos realizaram outro sonho de dona Cora: ter uma família grande. Vinte e cinco pessoas, entre filhos, netos e bisnetos. Falando deles percebo que a felicidade fica ainda mais evidente. Teimo em fechar o caderno de informações e guardar a caneta. O encontro está terminando. Acompanho dona Cora ao piano para mais uma foto. Enquanto Mauro Marques, o fotógrafo, clica, eu desejo voltar para ter a chance de mais histórias e lições ouvir.

Crédito: Mônica Cunha é jornalista e apresentadora de TV.

monikacunha@uol.com.br

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