ALÉM DO ESTETOSCÓPIO: DR. ROBERTO BOTELHO

Serifa Comunicação

Fotos: Mauro Marques

 

ALÉM DO ESTETOSCÓPIO

Recentemente, o cardiologista Roberto Botelho concedeu uma entrevista para o médico Lorenzo Tomé, do Saúde Digital Podcast. Botelho atua em Uberlândia e, desde 1999, trabalha com telemedicina. Há 10 anos, ele já falava que a tecnologia baixa custos e aumenta a qualidade da assistência médica e afirmava que a telemedicina é poderosa ferramenta para descentralizar a complexidade, universalizar o acesso e democratizar a atenção em saúde. Diretor do Instituto do Coração do Triângulo e também de suas divisões de Cardiologia Intervencionista e Pesquisa Clínica, é doutor em Ciências pela USP/SP. Além disso é fundador e presidente do UMC -Uberlândia Medical Center, da ITMS do Brasil e co-fundador da Conexa Saúde. Na entrevista, Botelho aborda a importância do empreendedor ter autoridade formal sobre aquilo que empreende e do conhecimento profundo sobre sua área de atuação. Somado a isso, ele chama atenção para a importância do networking e do feedback para um constante melhoramento do negócio e do seu mindset empreendedor. Confira a entrevista com esse médico que tem um diploma respeitável, exerce a medicina com excelência e é capaz de enxergar além do estetoscópio.

Qual é a sua especialidade?

Sou médico cardiologista, faço cardiologia intervencionista, fiz residência em instituições de boa credibilidade (Dante Pazzanese em São Paulo), doutorado em Telemedicina na Universidade de São Paulo e tive a oportunidade de fazer uma formação em Pesquisa Clínica em Harvard, o que me trouxe uma formação cartesiana do pensamento científico. Tive interação com engenheiros, com cientistas de computadores , com gestores. No decorrer dessa trajetória fui exposto a um networking muito diversificado, tanto em conhecimento, em cultura e em geografia. Esse networking talvez tenha sido a fonte mais importante para conseguir desenvolver alguns projetos porque mais importante do que o resultado do empreendedorismo é a necessidade de empreender.

Como foi sua vinda para Uberlândia?

Eu trabalhava em São Paulo e fui muito estimulado por um grande mentor, um visionário àquela época, que me ofereceu essa oportunidade de vir pra Uberlândia. Naquele tempo, eu já discutia esses conceitos de telemedicina e Uberlândia era uma das poucas cidades a ter o sistema de telecomunicação privado. Uberlândia tinha fábrica de fibra ótica, então era uma cidade que tinha no seu DNA tecnologia, telecom e digital. Montamos aqui um hospital focado em cardiologia, mas no fundo o que mais usufruíamos é que aqui podíamos trazer as tecnologias que a gente tinha visto na Nasa e implementá-las num ambiente propício, porque tínhamos telecom, data center, servidores e banda.

Conte-nos uma experiência.

Eu fazia uma cardiologia diferenciada porque ela já usufruía de telemedicina. Em 1996, eu conectava as cidades do Triângulo. Ao todo, umas 30 a 40 cidades. Ajudava essas cidades a fazer diagnósticos de síndromes coronárias agudas com telemedicina e estes municípios me encaminhavam os pacientes para tratamento da cardiologia intervencionista. Montei o primeiro serviço de cardiologia intervencionista privada aqui no Triângulo Mineiro. Então, a telemedicina me ajudou, na prática, a melhorar meu serviço como médico. Pude trabalhar como médico sem o preconceito e o medo de que a tecnologia fosse me atrapalhar, fosse me substituir. Um aspecto muito importante: nós estamos no meio do Brasil, no meio do cerrado, longe das grandes estruturas de saúde do país, do Rio de Janeiro, de São Paulo, e aqui construímos modelos que poderiam ser generalizados pra outras geografias, não só do país, mas também de fora. Os modelos que a gente construiu aqui foram expandidos pro Chile, Colômbia, Venezuela e Peru.

Como surgiu a Internet Telemedical System?

Em 1999, fui encontrado por um grupo suíço que já planejava investir em telemedicina. Esse grupo investiu em algumas operações na Itália, na Alemanha e me convidou para fazer parte. O grupo me estruturou, pois como médico não tinha a mínima noção de plano de negócio, e me convidou a expandir pra América Latina. Foi então que nasceu a Internet Telemedical System, uma rede de telemedicina que saiu então de Uberlândia e expandiu para o Chile, Santiago, Colômbia em Bogotá, para Argentina em Buenos Aires, para o Peru em Lima. Cheguei a abrir uma operação em Caracas no ano 2000. Criamos uma rede capilar na América Latina que hoje tem 926 municípios no Brasil e quase três mil municípios na América Latina conectados nessa rede. A ITMS foi a base propulsora disso com o grupo suíço e um grupo chileno. Estamos juntos há 19 anos. Fazemos teleconsulta na Colômbia há mais de 10 anos, por isso, atualmente, atendemos 10 mil pacientes por dia.

Como era a gestão disso?

Nós temos 20 milhões de pacientes na base de dados e fomos forçados a usufruir dos benefícios de um banco de dados estruturado vetorial. Passamos a treinar máquinas, a desenvolver algoritmos pra nossa necessidade real. Por exemplo, o nosso médico laudava 30 eletrocardiogramas por hora, porém, o sistema não se sustentava com isso. Com algoritmo de interpretação automática dos exames normais que desenvolvemos, a interpretação passou a 250 eletros por hora. Criamos um departamento de inteligência artificial, uma operação de inteligência artificial que nasceu dentro de uma operação de telemedicina, suportada com uma base de dados. Na Colômbia, tivemos um modelo que assinamos com o Google, onde compartilhamos imagens de teledermatologia pra algoritmos. Também na Colômbia temos o melhor modelo de teleconsultas que a gente já faz há muito tempo pra floresta amazônica, um negócio espetacular que chega a usar satélite. Esse aprendizado permite atender melhor as demandas da nossa Amazônia brasileira.

O que mais te preocupa nessa evolução?

O que mais me preocupa como médico e como empreendedor nessa área e na telemedicina é a segurança. Quando a gente fala em segurança não adianta ter uma estrutura de data center, de redundância, de contingência, de cyber security porque a interface humana pode romper com todo. A classe médica está sendo bombardeada por várias ameaças, não só da telemedicina, mas a da inteligência artificial substituir os processos repetitivos.

É preciso lutar pela causa?

Exatamente. Quero alertar os nossos colegas que essa é a oportunidade. Se os médicos brasileiros não abraçarem essa causa, não vestirem a roupa da inteligência artificial pra apoiar os seus processos e entregar valor, eles serão substituídos. Se observarmos outros países como Israel, Estados Unidos e o próprio Chile, vamos ver o que já acontece nesses países e irreversivelmente vai acontecer aqui no Brasil. Essa operação vai trazer benefícios enormes, vai trazer risco, nós vamos ter problemas, mas é assim que o mundo evolui. Todo problema tem solução, toda solução tem problema. Nos Estados Unidos já há pesquisas mostrando que 55% dos pacientes vão deixar os médicos que não usam telemedicina.

Pode nos contar um pouco sobre o algoritmo que você desenvolveu que faz detecção de infarto agudo do miocárdio?

Esse projeto nasceu a partir de um outro muito interessante. Fizemos um sistema de suporte, na nuvem, para o diagnóstico e tratamento do infarto. Esse programa se chamou LATIN e foi premiado em vários países (hoje roda no Brasil, Colômbia e México). Atendeu 800 mil pacientes com dor torácica, fez o diagnóstico de 8.600 mil infartos, tratou 4.500 mil e levou a uma redução de mortalidade. A média desses países era de 25% e reduzimos para 7% porque gera uma redução de quase 20% absoluta de mortalidade. Esse programa nos inspirou a desenvolver algoritmo pra diagnosticar infarto ou eletrocardiograma.

Houve avanço de tecnologia neste campo?

Sim. Carlos Villagran, um chileno, desenvolveu um algoritmo para diagnosticar infarto com 12 derivações. Um dia, ele questionou o número de cabos. O computador pode detectar um padrão repetitivo e fazer um diagnóstico com um cabo só. Ele começou a testar com cada uma das 12 derivações, pegou nossa base de dados: o paciente com diagnóstico de infarto, o paciente com eletro normal e o paciente com eletro anormal que não era infarto e treinou a máquina com derivação d1, d2, d3. A máquina aprendeu. Fizemos uma curva rock e vimos que a derivação v2, por exemplo, que eu coloco o eletrodo no tórax, chegou a 96%. Quando a Apple lançou a detecção do eletrocardiograma com uma derivação que é a d1 (compara o braço esquerdo com o braço direito), nós testamos essa derivação d1 e ela nos trouxe 94%. Esse é um método simples, acessível e você paga precisamente. Não quero diagnosticar infarto, quero detectar um infarto, porque se eu detectar um infarto na casa das pessoas, no campo de futebol, no supermercado, que é lá onde acontece, então posso ir com o eletro de 12 derivações e diagnosticar, confirmar ou não. Em março de 2012, solicitamos patente nos Estados Unidos, apresentamos ao mundo, recebemos premiação na Mayo Clinic com o melhor algoritmo de inteligência artificial na cardiologia. O algoritmo é um fenômeno multidisciplinar que nasceu de uma composição absolutamente inimaginável.

Esse fenômeno da transformação digital é um caminho sem volta?

Sim. Tudo que se investiu em medicina nos últimos 50 anos, quanto a procedimento, remédio, um remédio novo pra anticoagular, um remédio novo pra diminuir a arritmia, um dispositivo novo pra fazer angioplastia, tudo isso reduziu em 10 anos, 1% da mortalidade. Agora, quando tenho um processo da rede de telemedicina com um algoritmo de inteligência artificial reduzo 20%. Outro elemento fundamental: quando levo procedimento, um novo dispositivo, um novo remédio, aumento custo e quando levo processo como essa telemedicina com algoritmo de inteligência, baixo custo e aumento o acesso. Esse é o ápice de toda a nossa cadeia de desenvolvimento porque estamos chegando numa tecnologia disruptiva, que rompe, é acessível, de baixo custo e acreditamos que vamos dar acesso a todas as pessoas para terem um bracelete de 50 dólares no braço.

Você está entregando para o mercado uma inovação que traz um benefício ímpar para a população. Você concorda que a cabeça do médico precisa avançar?

Concordo. Se a pessoa não entender o fenômeno biológico, ela não vai criar um produto e ele vai perder uma oportunidade. Você não consegue trazer para a área de conhecimento de computação o conhecimento biológico da medicina, mas o contrário você faz. E outro ponto importantíssimo que a gente aprende com empreendedorismo: temos que acabar com hierarquias, é um indicador de uma sociedade evoluída. Nesse exemplo que tivemos no desenvolvimento desse algoritmo não há hierarquia entre equipe médica, equipe de computação, equipe de estatística, pois todos são absolutamente importantes.

Quando você propõe para um cardiologista tradicional que vai diagnosticar um infarto a partir de uma derivação, a primeira coisa que vem na cabeça dele é que isso não diagnostica, que esse processo quebra hierarquias e ele passa, na minha opinião, por uma queda do orgulho. Isso requer um exercício de humildade, não é mesmo? Concordo. A inteligência artificial exige que nós evitemos o chamado reverse antropomorphic thinking, o pensamento do algoritmo não é igual o pensamento humano. O humano depende de gráficos de um eletrocardiograma. Ele aprendeu que daquele gráfico vai fazer um diagnóstico. O algoritmo busca informação que quem criou não sabe de onde vem, ele busca padrão repetitivo, então não pode haver um preconceito que eu tenho que ter todas as derivações. Porque quando eu mostro uma imagem de cálculo renal para uma máquina, ela me fala de que é composto aquele cálculo, se é de ácido úrico. Então, esse preconceito de que o pensamento é um pensamento humano reverso não é. Se você entende que tudo é possível, você permite e joga informação não supervisionada para a máquina e ela vai te devolver qual é o padrão repetitivo. Isso é humildade. Há um conceito muito interessante que é o paradoxo epistemiológico que estuda a ciência. Quando caminhamos pra esse campo, a metodologia da ciência, que é um acordo matemático, que nós aceitamos um erro de 5% ou de 1%, esse acordo matemático vai ser modificado a partir da guinada quântica da chamada teoria do caos para a construção do conhecimento. Quando a gente entende isso, a teoria do caos para a construção do conhecimento, para a desconstrução do conhecimento, que é muito comum no nosso meio, aí o profissional de saúde e o médico ganham humildade. Quando entro para computação quântica, consigo submeter aos grandes processadores computacionais e eles me trazem uma verdade que tira o ruído e me entrega o sinal. Em Outubro de 2019 foi publicado na revista científica Nature um feito espetacular, chamdo de supremacia quântica. O computador quântico conseguir realizar em 200 segundos aquilo que computadores atuais fariam em 10 mil anos. A ciência procura aumentar a amostra de um estudo para reduzir o intervalo de confiança e isso te dá precisão. Se consigo analisar 20 milhões de pacientes em duas horas, o que estou fazendo é reduzir o intervalo de confiança, entregando precisão e fugindo do caos.

Conte-nos um pouquinho do UMC. Quais são as características desse hospital? 

Esse hospital nasceu digital. Como saí para vários países e comecei a colaborar com grandes centros, nos veio a ideia de trazer esse conhecimento de fora pra nos ajudar aqui. Fizemos um conceito que copiei na Flórida de multiplex de saúde, um local que o usuário, o paciente, o cidadão, chega, estaciona o carro e tem todas as suas necessidades: clínica, laboratório, radiologia, hospital, banco, farmácia, padaria, ótica, vacina, segurança e outros.  Dentro desse multiplex, instalamos essa estrutura aí de shopping de 70 mil metros quadrados. Mapeamos esse shopping pra colocar essa estrutura de maneira integrada. Temos uma torre de consultórios: são 220 salas, cada consultório tem uma plataforma de teleconsulta que é um market place. O médico chega com a roupa do corpo, aluga uma sala que tem sistema, computador, secretaria e plataforma de telemedicina. Utilizamos a plataforma de telemedicina, o paciente faz o check-in remoto e já agenda a consulta. O pronto-socorro não temos interface humana pra decisão sobre o tratamento do infarto. Ele aperta um touch screen que está escrito dor no peito. A partir daí, a decisão é digital e o algoritmo de inteligência artificial faz o diagnóstico e deflagra a reperfusão do infarto. Esse tipo de experiência nos permitiu ser um complexo de saúde aberto, onde qualquer profissional que tenha título, que tenha formação, pode vir trabalhar aqui. Não depende de cotas, ele é completamente aberto. Esse é o UMC, um hospital como qualquer outro, que vai chegar a 220 leitos. Hoje está com cerca de 80 e temos um prédio que deve se concluir até o fim do ano que vem. São 1000 cirurgias por mês e de alta complexidade. Fazemos cardiologia, neurocirurgia, entre outras. Há pouco tempo inauguramos nosso robô Davinci. Quem visitar vai ver um ambiente tranquilo, um ambiente de colaboração, um ambiente de ruptura de hierarquias, porque foram estabelecidas responsabilidades. As pessoas ficam felizes de interagir porque esse é um ambiente que a gente recomenda, é um conceito então digital. Estamos trabalhando com grupos grandes. Grupos internacionais viram nesse espaço uma oportunidade de desenvolvimento e aceleração de conceitos, especialmente esse modelo dentro de um ecossistema no qual controlo toda a experiência horizontal do paciente e, no fim do dia, ele é centrado na experiência do paciente. Consigo entregar valor, esse é o nosso maior desafio. Falo para os médicos todos que nos visitam: a única maneira de entregar valor no sistema de saúde atual é através do digital. Se você não tiver ferramenta digital, esqueça, o seu hospital vai fechar. O UMC é um conceito complexo, é um multiplex.

Como é o seu dia a dia? Você dá assistência ainda ou fica só na administração? Como divide pesquisa, ensino, extensão, empreendedorismo e família?

Talvez não estaria atuando e nem feliz por continuar médico se não tivesse uma retaguarda digital e um time de colaboradores. Somos uns mil colaboradores, sem hierarquia. Por isso consigo dividir meu tempo. Faço cardiologia, faço cardiologia intervencionista, participo de pesquisa clínica, sento à mesa no conselho do complexo, então eu escuto sobre gestão. Consigo ser um médico muito mais feliz porque estou visitando outros silos. Outro dia estava num debate com uma colega que atua em Harvard, no Massachusetts General Hospital e ela (Fabiola Macruz) deu um conselho interessante. Perguntaram como ela administra a vida e ela disse que temos que ser híbridos. Então, o fato de ser híbrido me permite “andar” por esses ambientes com prazer. A grande questão é essa: se você tem prazer no que faz, entende cada peça que compõe o todo. Eu acredito que o cérebro e a mente humana se comportam integrados e conseguem entregar muito mais quando você faz essa multidisciplinaridade. Divido mais ou menos 20% do meu tempo para cada uma dessas atividades. Participo de reuniões riquíssimas em que você recebe e entrega informações para propulsão desse conhecimento, que não pode ser mais segmentado em silos. Ele tem que ser abrangente e conectado por esse tecido que a gente chama de tecido cósmico, porque é um tecido de informação que você não sabe de onde vem, mas contribui. Atuo em todas as áreas. Sou casado, tenho dois filhos (como casei tarde, tenho um filho de dez anos e uma filha de dois e não terceirizo meus filhos). Fim de semana não tenho ninguém pra ajudar: eu quem cuido, que fico com menino no colo, e é uma delícia ficar com menino no colo. Essa energia que você troca com a criança, o exemplo que você dá, o convívio que você tem com elas é muito projetado pra sua vida profissional e isto ajuda muito. Procuro entregar um modelo de saúde que atenda ao nosso filho, você entende a dor da sua mãe. Então, nossos receptores sensoriais são diversificados e essa diversificação faz parte da conquista da felicidade, e a conquista da felicidade é ter essa diversificação.

(Entrevista concedida para o médico Lorenzo Tomé, do Saúde Digital Podcast. Transcrita e editada por Serifa Comunicação).

 

 

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