Cultura pós-pandemia

ALMANAQUE CULT

Carlos Guimarães

Fotos Arquivo Pessoal | Divulgação

 

A arte traz clareza aos que estão imersos neste estado caótico.

O que é uma pós-pandemia? Nem temos certeza ainda de nosso estado pandêmico e já queremos saber o que será de nós quando tudo isso passar. Fala-se em reinvenções, em novo normal, uma série de clichês contemporâneos apenas para definir aquilo que é incerto. Como incertos têm sido todos os nossos dias desde aquele fatídico mês de março. Neste oceano de incertezas, apenas uma coisa é certa: há em nós uma resistência natural, um instinto básico de sobrevivência que nos faz nadar contra a maré e alcançar o nosso destino. E isso nos basta! Dele, emerge a arte. A mesma arte que, nos tempos calmos, quase sempre se afoga cotidianamente em tudo aquilo que seja incerto, que seja ambíguo. Movida pela inquietude, isso basta à arte! Da agonia de seu mergulho surgem as melhores obras. A história universal dá contas disso. Nos períodos mais calamitosos em todas as eras, como Phoenix, ela sempre ressurge das cinzas. E retorna vigorosa, com mais potência, poder de alcance e de catarse. Entenda-se por arte tudo aquilo que seja estendido em sua essência. Não falamos de seres oportunistas que discursam a técnica, mas não amaciam a matéria-prima. Há “artistas” e artistas. Os verdadeiros sobressaem em seus próprios conteúdos e nos valores morais e éticos que os permeiam. Os demais buscam no campo das vaidades o caminho da superficialidade para o fingimento de dizer algo que não conseguem dizer. Perdem-se em construções maniqueístas e parafernálias de jogos e dissimulações distantes de tudo aquilo que possa se chamar de arte. Não há fórmulas mágicas para selar nossos caminhos. Não há equações que possam devolver as nossas perdas ou, num revisionismo mágico, criar o cenário ideal para a arte ser recompensada. Tudo está por perdido. Tudo está por ser encontrado. E disso, caminhos e descaminhos, experimentações, perder-se e reencontrar-se, os artistas entendem bem. Muitos não se conformam com esse cenário de guerra. Muitos se tornam especialistas em tudo. Buscam explicações para o inexplicável. E alguns insensíveis querem colocar ordem e traduzir o sentimento dos que vivem este momento em meio a dores e em meio ao caos. A arte traz clareza aos que estão imersos neste estado caótico. E eventualmente desperta também aqueles que não têm muita sensibilidade para compreendê-la. Nenhum de nós sabe o que está por vir. E as previsões não são as melhores. Por mais que o inconsciente coletivo queira amenizar o futuro em uma perspectiva de revisão histórica, seria milagre ver boa parte das pessoas se transformando em decorrência de um vírus. O que acontece durante a pandemia já sinaliza a indisposição humana em tornar-se melhor, ainda que alguns desejem e estejam buscando evoluir a partir dessa experiência trágica. Neste contexto, para os que se enquadrem no segundo grupo, a arte é reveladora. Ela se impõe como o melhor antídoto para a pandemia. Não somente por ter sido alento nestes tempos tão duros e de, a partir de sua presença, ter levantado reflexões importantes sobre nós mesmos e o planeta que construímos, é ela, principalmente ela, que também nos levará ao lugar que queremos estar, seja ele diferente ou não daquele que pretendíamos antes de tudo isso acontecer. Ela tem o poder da desconstrução. Isso basta para que a gente se reconstrua.

 

Carlos Guimarães Coelho é jornalista e produtor cultural.

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