A política da perfumaria

ALMANAQUE

Carlos Guimarães Coelho
Fotos Arquivo Pessoal | Divulgação

A maioria, nesse momento, se “revela” preocupada com a cena cultural da cidade.

Entramos novamente em uma corrida eleitoral, quando candidatos diversos buscam o poder persuasivo da arte para se promoverem e abocanharem votos. Um setor buscado por conveniência já que, na pior das hipóteses, rende a popularidade, antes, durante e pós-eleições. Mas, como de praxe, ao observar os respectivos planos de atuação da maioria, a cultura fica relegada a planos inferiores e cumpre dela a visão tida por alguns, como algo desimportante, subestimando os seus preceitos básicos para evolução da sociedade e a formação do ser humano. São 864 candidatos a vereadores e um número, ainda indefinido, de quase uma dezena de candidatos à prefeitura. É muita gente para poucos saberes. A maioria, nesse momento, se “revela” preocupada e comprometida com a cena cultural da cidade. Como isso se dá não é expresso nas propostas apresentadas, ao menos não nas que se tornaram públicas.

É um caminho quase natural não compreender as subjetividades e potencialidades da arte e tratá-la como objeto decorativo. Sua importância para tais candidatos reside mais na hora de compor o jingle da campanha, editar o vídeo de apresentação, criar o folder oficial ou de buscar o apoio dos trabalhadores da cultura. Quando arguidos acerca de orçamentos para a área e políticas públicas para a fruição da arte, o idioma artístico lhes parece desconhecido. Lamentável que seja assim, que em pleno 2020 as pessoas ainda não se atenham para a importância de pautas imprescindíveis como a cultura, a educação e o meio ambiente, e permaneçam na superficialidade, não compreendendo o que de fato tudo isso representa. Maior lamento – e repulsa – causa observar candidatos vestirem suas máscaras e agirem como se suas histórias fossem marcadas pela defesa incessante destes segmentos, com os quais notadamente não têm nenhuma intimidade.

Pertencentes à área tentaram localizar quem fugisse dessa rasadura. São poucos. Entre os quase mil, talvez seja possível contar nos dedos das mãos quem compreenda esse universo e esteja predisposto a defendê-lo de menosprezo, tentativas de demonização e boicotes. Mas, é bom que, mesmo em número tão reduzido, eles ainda existam. E resistem. Resta torcer para que façam parte da renovação da Câmara. O fato é que um vereador, muitas vezes, com uma simples iniciativa, pode transformar a realidade de um município. E também por meio da cultura. Haja vistas para o atual Programa Municipal de Incentivo, o PMIC, que deu uma guinada nos rumos culturais da cidade e é hoje, muito provavelmente, a principal ferramenta de trabalho dos agentes culturais em Uberlândia. Ele foi implantado décadas atrás, por iniciativa de um vereador que nem vive mais na cidade, Geraldo Resende Júnior, após uma infrutífera tentativa de outro vereador que o precedeu anos antes e inúmeras reuniões com artistas e produtores culturais da cidade. A iniciativa vingou e a cultura local passou a ter novos paradigmas.

Este é apenas um exemplo de como pode se dar uma intervenção de um agente do legislativo e o quanto isso pode reverberar, influenciar e alterar os rumos do desenvolvimento cultural de uma urbe. Por si, ele basta para que os que trabalham com arte e cultura em Uberlândia valorizem o seu voto ao ponto de direcioná-lo a alguém que defenderá um setor muitas vezes rechaçado, desprestigiado e até mesmo atacado pelas agruras da politicagem, localmente ou em nível nacional. Como nos palcos desertos, nas páginas vazias, nas partituras por serem preenchidas e nas telas em branco do cinema e das artes visuais, estamos diante do nosso destino, com o poder de redesenhá-lo, em momento crucial e estratégico. Se você é alguém que valoriza a arte à altura de suas significâncias, não se deixe seduzir pela cantada barata de quem a enxerga como perfumaria. Vote consciente em quem tem consciência do que seja cultura.

Carlos Guimarães Coelho é jornalista e produtor cultural.

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