A evolução do faroeste

O faroeste já foi um dos principais produtos de Hollywood. Pode não ser um dos mais populares, mas ainda é o mais americano dos gêneros. Na era do cinema mudo, sua produção era intensa, devido ao seu baixo custo e por poder ser produzido rapidamente (alguns filmes podiam ser produzidos em uma semana, desde o roteiro até a edição final). Esse gênero tem características que o tornam fácil de reconhecer. Por exemplo, podemos associar seu contexto a um local e um período histórico específico, como nas produções que retratam o Oeste do Rio Mississipi, Norte dos rios Grande e Vermelho, algum momento por volta de 1.865, com o fim da guerra civil americana.

Essa vertente fez muito sucesso até a década de 50, perdendo espaço para novos gêneros que foram surgindo. No entanto, na Europa, ele ainda teria seus anos dourados entre as décadas de 60 e 70. Explorado, ainda que de forma menos sutil, algumas comparações podem ser feitas entre as duas produções, por exemplo, a presença das trilhas sonoras marcantes, que são quase unânimes em todo bom western.

No Faroeste Spaghetti, principalmente, as trilhas são parte da divindade e encanto da trama. Nas obras de Sergio Leone, é evidente o peso da música no envolvimento e na caracterização dos personagens, uma vez que Ennio Morricone sabia como ninguém compor músicas que dessem vida às cenas. A parceria entre cineasta e compositor perdurou ao longo de suas carreiras.

O modus operandi dos personagens é outro fator não muito semelhante entre as produções, considerando, que em Hollywood, a lei se personifica em um distintivo ou em uma entidade, e no Spaghetti o anti-herói age movido apenas por impulsos ou necessidades próprias, sem muitos ímpetos de consciência. O romance é um fator secundário para o Spaghetti, tornando o personagem, assim como as suas paisagens, árido e insensível, enquanto os bons moços de Hollywood, ao final da trama, sempre ficam com a mocinha.

Alguns filmes se tornaram ícones das duas frentes. Então, aí vão sugestões para algumas horas de muita aventura, tiros e se sobrar tempo, um pouco de romance.

Um dos primeiros filmes que trouxe como tema o faroeste, foi “O grande roubo do trem” de 1903 – de Edwin S. Porter. Podemos dizer que ele foi o pioneiro do gênero, ainda que de forma bastante amadora (estamos falando de 1.903), quando introduziu um dos clichês que seria usado muitas e muitas vezes depois em diversos outros filmes: a cena em que um bando atira nos pés de um homem, fazendo-o simular uma dança. O filme traz também um dos primeiros astros que teve três participações no filme, o ator Max Aronson que, mais tarde, se tornaria famoso ao incorporar o personagem Broncho Billy.

Anos mais tarde, com o gênero já consolidado, temos o grandioso “No tempo das diligências”, de John Ford, um dos diretores referência quando falamos em westerns. Nessa produção, está presente uma parceria de sucesso marcando o início da carreira de John Wayne que, anteriormente, não teve muito destaque atuando apenas em westerns “B”, sem muita expressão. Boa parte da trama se passa a bordo da diligência, onde personagens conflitam entre si, num jogo de preconceito, moralidade e vaidade. O filme traz um “quê” de crítica social bastante pertinente aos padrões da época.

Outro grande título de western americano e que vale a pena ser visto é “Matar ou morrer” – de Fred Zinnemman. O filme, além do que sugere título, é de uma intensa complexibilidade, que envolve o dilema do marshal Will Kane, interpretado pelo charmoso Gary Cooper, que hesita entre ficar ou deixar a cidade para salvar sua vida, antes da chegada de um perigoso bandido. O filme se passa em apenas algumas horas e, mesmo assim, podemos sentir a tensão e a determinação do personagem. Em grande parte do filme, não é disparado um único tiro, fato que deixa ainda mais tenso o desenrolar da trama. A cena final é a redenção, o que esperamos do bom e velho faroeste.

Um dos primeiros faroestes spaghetti é “Por um punhado de dólares”, de Sergio Leone. Traz gangues rivais, contrabando e Clint Eastwood como um pistoleiro habilidoso e negociador que atua de modo a não deixar claramente definido se o mocinho é de fato mocinho, pois mostra apenas lampejos de consciência momentânea. Vale muito a pena assistir.

Ainda de Sergio Leone, “Três homens em conflito” é o último da trilogia dos dólares com uma das mais marcantes trilhas sonoras de Ennio Morricone. Apresenta Clint Eastwood, Lee Van Cleef e Elia Wallach como personagens que marcam entre si as mais possíveis discrepâncias. Em busca de um dinheiro roubado, percorrem não só paisagens sinuosas, mas espectros de consciência complexos. O filme é de fato uma obra prima e merece ser visto e revisto.

São muitos os clássicos Spaghetti, e muitos” Sergios”.Dessa vez Sergio Sollima com a produção de “O dia da desforra”, título que merece relevância, embora se distancie um pouco do contexto dos filmes anteriores, ao trazer para as telas temas como política e uma certa dose de humor ácido. Traz Lee Van Cleef em um papel um pouco mais ameno se comparado aos anteriores, onde incorpora vilões terrivelmente frios. Outro detalhe que não pode passar despercebido do filme é sua extraordinária trilha sonora, composta também por Ennio Morricone concedendo vida paralela à trama.

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