
Quem é a Fernanda Patrícia?
Eu nasci em Uberaba. Acho que foi a melhor forma de me apresentar, pela primeira notícia, uma uberabense. Vivi a minha infância em uma cidadezinha pequena chamada Fronteira, à época, com 7 mil habitantes. O meu pai era Praça da Polícia Militar, então Sargento, comandava o destacamento da cidade. Por lá, vivi toda a minha infância, convivendo dentro de um ambiente muito pequeno e nos relacionando muito com os policiais de lá. Lembro-me dos nomes deles, até hoje, porque eram muito próximos, realmente, de dentro de casa. Frequentava muito o quartel também, assim, fui criada nesse ambiente. Na minha adolescência, fui residir em Uberaba, estudei no colégio Tiradentes da Polícia Militar, meu pai nunca me influenciou, diretamente, a ponto de falar ou sugerir a entrada na Polícia Militar. Minha mãe até agradeceu não ter filhos homens para não escolher a carreira, tinha muito receio. Apesar do medo, não adiantou muito. Somos duas irmãs. Meu pai era negro e minha mãe loira, então, são duas filhas que eles apelidaram: a Branca e a Preta. Minha mãe é pedagoga do Instituto Federal do Triângulo Mineiro. Passei minha adolescência em Uberaba e, no Colégio Tiradentes, recebemos a visita de cadetes, alunos em fase de formação do curso de oficiais, levaram panfletos para nos orientar ao ingresso e, a partir de então, comecei a me interessar. Também tinha um primo que, hoje, pertence ao Poder Judiciário. Dentro desse contexto de pai, tios, primos e convivência, decidi fazer a prova. Na primeira tentativa, no ano de 1999, consegui ser aprovada. Também nesse ano, meu pai foi para a reserva. Em 2000, inicio na Academia [de Polícia] e meu pai encerra [a carreira] no posto de Subtenente, e eu começo como Tenente, como se fosse uma continuidade. E o que eu me lembro mais dessa época é que todas as fases do concurso, exceto a prova, que foi em Uberaba, ele me acompanhava. Íamos de ônibus para BH [Belo Horizonte] e ele sempre me aguardava para fazer as provas e testes, sempre torcendo por mim. Foi um grande companheiro. Infelizmente, faleceu em 2018, pouco antes da minha promoção para Major. Minha mãe mudou-se para Uberlândia também. Conheci o meu esposo na Academia, começamos a namorar e nos casamos em 2003. Em 2007, tivemos nosso primeiro e único filho, Heitor. É essa a minha história.
Como é ser uma mulher Oficial, em uma profissão com características masculinas, em um país, predominantemente, machista?
A PMMG [Polícia Militar do Estado de Minas Gerais] é uma instituição pioneira. Tenho orgulho em dizer que a primeira turma que permitiu o ingresso de mulheres, teve a que chegou no último posto da carreira da corporação, de Coronel. Esse caminho, trilhado por elas, abriu portas e criou facilidades. Profissionalmente, sempre fui muito valorizada e, ao contrário do que as pessoas dizem, é uma profissão em que o preconceito, em todos aspectos, não existe. As pessoas, independente de cor ou gênero, progridem, normalmente e em igualdade de condições, na carreira. O que diferencia é a dedicação e a disponibilidade para o serviço. Ademais, a própria legislação, por ser muito rigorosa, é um amparo muito bom.
Em relação à tropa, seus comandados, como é? Existe preconceito pelo fato de a senhora ser mulher?
Gosto de cuidar e de valorizar o ser humano, trato todos com cordialidade e educação, mas tenho um perfil corretivo, rigoroso e todos conhecem essa minha condição. Anteriormente, comandei três companhias, quando saí da última, a 158, localizada no bairro Umuarama, recebi muitas mensagens carinhosas e de gratidão. Meu Whatsapp se encheu de mensagens, várias me emocionaram. Não tenho problemas com a tropa por ser mulher, vejo uma boa aceitabilidade, converso com eles e busco estar sempre presente com todos. Sei que somos de uma sociedade, predominantemente, machista, mas, quando há o ingresso na Polícia Militar, durante a formação, aprendem a importância do comando, da hierarquia e da disciplina, comuns também com a figura feminina. Ademais, a própria PMMG cria um ambiente para que isso não ocorra, para que essa aceitação seja algo natural e é o que sinto. Se existe, não consigo perceber, até porque a questão da hierarquia impõe muito essa condição. Percebo dos meus Oficiais e do meu Comandante muito respeito e reconhecimento.
Como é sua relação familiar?
O fato de o meu esposo também ser policial me ajuda muito, ele entende meu trabalho. Penso que compreende mais do que se fosse alguém de fora do meio militar, até porque eu sempre trabalho com muito mais homens. Também é meu grande incentivador profissional. Quando faço cursos fora ou viajo, ele cuida do meu filho, me dá todo apoio e me deixa tranqüila. Em relação ao meu filho, a carga horária do serviço exige muito, mas entendo ser uma questão comum para todas mulheres que estão no mercado de trabalho; sempre busco um tempo de qualidade com a minha família. Então, gosto de passar o maior tempo possível com ele, que hoje é adolescente e está naquela fase de ficar mais tempo no mundinho dele.
As mulheres estão sendo mais vítimas de violência, principalmente, violência doméstica?
Sim, tem até nos relatórios em nível nacional, estadual e algumas reportagens também que divulgam essa questão desse aumento. Precisamos entender o momento, saímos de um período de pandemia, a questão de as pessoas estarem mais próximas em casa, mais juntas, trouxe um pouco desse ingrediente do contato mais frequente, [que pode] trazer, às vezes, um clima hostil no lar. Agora, retornando, eu vejo também que, com os investimentos que a polícia faz para entregar para a sociedade um serviço específico, que é a patrulha de violência doméstica, as companhias de prevenção à violência doméstica trouxeram mais confiança e as denúncias estão acontecendo. Então, às vezes, fica difícil dizer qual é o impacto que a confiabilidade do serviço trouxe para esse aumento de denúncias. O fato é que nós estamos atentos. A polícia tem esse olhar cuidadoso para esse público, tanto que destina serviços específicos. A Sargento Flávia é um exemplo, para que a gente possa garantir a segurança dessas mulheres. Inclusive, nós fazemos análises de boletins de ocorrências, de ameaças, de agressões que vislumbramos possíveis de evoluir para uma situação para, assim, fazer uma abordagem preventiva, que evite chegar a situações mais desastrosas.
E que orientação a senhora daria para as mulheres que estão sendo vítimas de violência?
Primeiramente, é não se submeter a uma situação de violência. Muitas vezes, a mulher não sabe – isso é verdadeiro – que está sendo vítima de uma violência doméstica, principalmente, quando ela começa no âmbito psicológico. Deve acionar a PM, pelo [número de telefone] 190; nele, todos os profissionais são capacitados para dar o melhor encaminhamento. Principalmente, para esse serviço específico, que é nossa patrulha de violência doméstica, a vítima também pode procurar diretamente uma das nossas unidades. Existe, também, toda uma rede de apoio de serviços de nível municipal, estadual que fortalece, agrega e traz para essa rede uma série de serviços que podemos encaminhar para as diversas necessidades que se apresentem.
Você acredita que a mulher chegará ao comando geral da PMMG?
Sim, a nossa instituição não mede as pessoas, tampouco distingue, por uma questão de raça ou gênero. Ela valoriza os que se destacam no trabalho. Assim como meu pioneirismo aqui no Triângulo [Mineiro], em Uberlândia, a primeira mulher a comandar um Batalhão PM. Porém, já tivemos várias comandantes na Capital e, atualmente, três mulheres no alto comando da Corporação e duas já em condições que já têm data para serem promovidas. Então, o alto comando ficará composto por cinco mulheres, isso é muito relevante.
