De tudo que o palco nos ensina

Master Class encantou o público e suassuna e boca de ouro também prometem surpreender.

O que o teatro nos dá é sempre uma aula magna. Aprendemos com cada espetáculo, com cada equipe, com cada parceria, com cada plateia. Com a peça Master Class, encenada entres os dias 30 de março e 1 de abril no Teatro Municipal de Uberlândia, com a mais absoluta certeza, saímos estudantes fortalecidos na escola da vida. A interpretação de Christiane Torloni, comparável somente à de sua antecessora Marília Pera que viveu a mesma personagem há mais de duas décadas, é simplesmente magistral. A Maria Callas que ela nos empresta é a mulher dicotômica, com personalidade permeada por fortalezas e fragilidades, que nos devolve o sentido da arte. O melhor dessa Master Class é a sua narrativa desenvolta para atingir não somente aqueles que têm a erudição para compreender as significâncias do mundo lírico, como também os leigos que querem apenas apreciar e conhecer um pouco mais o universo da arte e da música. A presença visceral de uma artista completa, somada à completude de um elenco afinado, talentoso e também vigoroso, nos traz esse signo, o da arte enquanto verdade, enquanto busca necessária do artista pela sua essência e da luta que se trava para chegar ao cerne da questão que a cena pretende alcançar.

Como não bastasse, o texto de Terrence McNally é deliciosamente poético. Lança frases que impactam nossos pensamentos e nos fazem refletir sobre que lugar queremos estar em nossas vidas, e tomando como referência a história ímpar de uma mulher arrebatada pela arte e recortada em cacos pelas armadilhas do mundo. Para desenhar no palco esse texto primoroso com o desempenho de artistas e músicos altamente comprometidos com a cena, essa Master Class buscou a assinatura de um mestre do bom senso estético e cênico, o diretor José Possi Neto, que arrematou com golpe de mestre as sutilezas dessa vida encarcerada na voz de suas inseguranças e liberta apenas no canto que conquistou o mundo, conseguindo retransmitila na cena milimetricamente coreografada para Christiane Torloni. Não por acaso, essa Master Class, fruto da luta e perseverança do apaixonado maestro Fábio Oliveira, ao lado da produtora, atriz, cantora, também integrante do elenco, Julianne Daud, recebeu as melhores críticas e classificações nas principais publicações editoriais do País. E encerrou em Minas a sua trajetória. Uberlândia foi a penúltima cidade a receber o espetáculo, encerrado em Belo Horizonte no fim de semana seguinte ao nosso.

Próximas atrações
E se Master Class nos faz refletir sobre como e por que a arte existe, bom é saber que ela assume vários formatos e atinge as pessoas de maneiras diversas. Como já divulgado anteriormente neste espaço, o início de maio nos reserva o culto às brasilidades. O premiadíssimo musical montado no Rio de Janeiro, em homenagem aos 90 anos do escritor Suassuna, O Auto do Reino do Sol, chega à cidade nos dias 4, 5 e 6 de maio. Após isso, Uberlândia recebe um grande sucesso brasileiro que estreou fim do ano passado em São Paulo e cumpriu temporada no início de 2018 no Rio, a peça Boca de Ouro, protagonizada pelo ator global Malvino Salvador, ao lado de um elenco numeroso, que inclui Mel Lisboa, Claudio Fontana e, orgulhosamente, a atriz nascida em Uberlândia, Lavínia Pannunzio. As apresentações serão dias 9 e 10 de junho, também no Teatro Municipal de Uberlândia. É a primeira vez que Lavínia retorna como atriz à cidade. Ela vem com frequência rever amigos e familiares, já dirigiu espetáculos por aqui com o Grupo Elenco, mas há cerca de quatro décadas não sobe aos palcos locais para mostrar sua premiada verve artística. Boca de Ouro é uma deliciosa peça musicada. E tem uma assinatura nobre. Foi dirigida por um dos mais célebres encenadores brasileiros, Gabriel Villela. Ele deu um tom absolutamente leve e farsesco à obra originalmente densa de Nelson Rodrigues. E, embora o chamariz seja um galã de novelas da Rede Globo, bom ator de teatro, o elenco é uníssono e convence a plateia com a diversão, entretenimento e questionamentos provocados pela trama. Para quem perdeu, então, a comovente Master Class, as aulas continuam, em maio com Suasssuna, o Auto do Reino do Sol, e em junho, com Boca de Ouro. É o teatro alegrando plateias e persistindo na busca por novas descobertas e aprendizados.

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