COM UM PÉ NA COZINHA E O OUTRO NO SALÃO

Joana Araújo | Redação Cult

AS OPORTUNIDADES PARA OS NEGROS SÃO MENORES,

MESMO DIANTE DAS MUDANÇAS ATUAIS DE CENÁRIO

Chef de cozinha, João Diamante luta pela gastronomia inclusiva, criando oportunidades ‘Ter um pé na cozinha’ é um termo bem comum e incorreto, utilizado pelos brasileiros, demonstrando a ligação feita entre a negritude e o fogão. Uma infeliz referência do período da escravidão em que o único lugar permitido aos negros, principalmente as mulheres, era a cozinha da casa grande. Porém, quando a culinária mudou de status e se tornou gastronomia, as mãos dos negros saíram do protagonismo da cozinha, para dar lugar aos chefs, majoritariamente brancos. É simples entender: se vestirmos um branco e um negro com uma dolmã – jaqueta utilizada pelos chefs de cozinha -, o branco será intitulado chef, já o negro cozinheiro. Nosso entrevistado do mês veio para provar que há, sim, chefs de cozinha negros. João Diamante é o apelido de João Augusto Santos Batista. Jovem, negro, nordestino e morador da favela, tem sua trajetória marcada pela luta e o inconformismo. Nascido na Bahia e criado na Divinéia, no Complexo do Andaraí, Zona Norte do Rio de Janeiro, Diamante foi cozinheiro de autoridades na Marinha do Brasil e trabalhou com grandes nomes como Alain Ducasse, Flavia Quaresma e David Jobert. Foi Chefe Executivo do Restaurante Fazenda Culinária, localizado no Museu do Amanhã, por dois anos. Premiado em 2017 com o título de “Chef Revelação pelo Prêmio Infood de Gastronomia” e, em 2019, premiado pela Universidade Estácio de Sá – Medalha Alumni Diamante. Mesmo com os obstáculos e dificuldades de sua origem social e racial, João não desistiu de seu sonho. “As oportunidades para os negros são menores, mesmo diante das mudanças atuais de cenário. Sempre busquei com todas as forças as oportunidades, embora realmente algumas eu tivesse que mostrar três vezes mais esforço que outras pessoas”, salienta. “A gastronomia é uma profissão elitizada, só consegue chegar quem tem uma condição financeira para estudar nas melhores escolas, viajar para outros países para ganhar bagagem e conhecimento. Este início é muito caro financeiramente. Até hoje eu pago FIES (Financiamento Estudantil). Só assim consegui entrar na faculdade e abrir muitas portas”, explica. Por ser incomum um chef de cozinha negro – o próprio chef disse conhecer de 36 a 8 profissionais – João já passou por situações, no mínimo revoltantes. “Com minha equipe nunca houve nada ligado ao racismo, mas já notei olhares e situações de clientes. Em uma ocasião abordei um casal dentro do restaurante, que ainda estava fechado, e eles responderam com a maior cara de desdenho: ‘fomos autorizados a entrar. E você quem é?’. Me apresentei como chef executivo do restaurante e, claro, o semblante mudou na hora”, revela. Para mudar este cenário de preconceito encontrado em profissões com pouca representatividade, o chef acredita que a cultura e a educação sejam a saída. Ele é o criador do projeto social ‘Diamantes na Cozinha’, que usa a gastronomia como ferramenta de transformação, gerando oportunidades para outros. E como dica para os jovens negros, João é enfático: “Encare o mercado de trabalho de frente, sem medo de arriscar. E quando se deparar com alguma situação de racismo, denuncie. É preciso penalizar e reeducar as pessoas quanto ao crime de racismo. Só assim vamos mudar este cenário”, finaliza.

Atualmente, João é chef de cozinha no espaço Na Minha Casa, jurado do Programa Cozinheiros em Ação – GNT, empresário, consultor gastronômico com expertise em gestão de pessoas e treinamento de equipes no setor de Alimentos e Bebidas. Realiza palestras motivacionais e tornou-se um grande ativista social.

 

 

 

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